Fundação Oficial: 23 de agosto de 1940
População (aprox.): cerca de 17.000 habitantes
Localização: Zona Sul de Fortaleza, limitando-se com os bairros Montese, Fátima, Aeroporto e Parreão
Das Terras de "Barro Preto" ao Loteamento que Virou Bairro
A história do Vila União começa muito antes de sua fundação oficial, quando a área era conhecida como "Barro Preto" — referência à característica do solo da região, rico em argila escura, utilizada por olarias para a fabricação artesanal de tijolos e telhas -1-3.
As terras pertenciam à Sra. Maria da Conceição Jacinto, natural do município de União (atual distrito pertencente a Jaguaruana).
Em 1938, a área foi adquirida pelo Dr. Manoel Sátiro, que iniciou o processo de loteamento da região.
Em homenagem à sua terra de origem, o novo loteamento recebeu o nome de "Vila União" , sendo oficialmente reconhecido como bairro pela Prefeitura de Fortaleza em 23 de agosto de 1940. -
Com a venda dos lotes, chegaram as primeiras famílias: a família do Sr. Frutuoso, a família de um senhor conhecido como Pacoti, a família do Sr. Antônio Cambista e a família Gadelha, entre outras. -
Os Primeiros Anos: Infraestrutura e Conquistas
O progresso do bairro veio de forma lenta.
Em 1942, foi construída a estrada de ferro que passa pelo Vila União até hoje, ligando a Parangaba ao Mucuripe.-
A energia elétrica só chegou em 1957 e a água usada era de cacimba.
A lagoa (atual Lagoa do Opaia) também abastecia o bairro e, na época, não era poluída -1-6.
A primeira escola do bairro era integralmente financiada pela maçonaria, pois o corretor responsável pela venda dos lotes era maçom.
A escola funcionava na residência do Sr. José Ramos Gadelha e sua filha foi a primeira professora do bairro. -
Em 1964, foi inaugurada a primeira escola pública do bairro, fruto da mobilização de uma comissão formada por famílias locais que pressionaram as autoridades.
Com a vitória do general Cordeiro Neto nas eleições, a escola foi batizada com seu nome e permanece até hoje. -
A Lagoa do Opaia: De Berço a Símbolo de Resistência
A Lagoa do Opaia é parte fundamental da identidade do bairro, embora esteja situada inteiramente no bairro Aeroporto, fazendo limite com o Vila União em sua margem noroeste — o que causa frequente confusão sobre sua localização.-2
Antes chamada de Lagoa do Paia, seu nome está associado ao Sr. Opaia, um morador que retirava grandes quantidades de barro preto do local para fazer tijolos e telhas artesanais.
Com o tempo, foi formando cacimbas e poços até compor-se a lagoa, que recebeu seu nome em reconhecimento à sua participação na formação do corpo d'água. -1
Nas décadas de 1980 e 1990, a lagoa foi um movimentado ponto de lazer da cidade.
Porém, com o aumento populacional do entorno, começaram a surgir problemas como acúmulo de lixo e despejamento de esgoto, além da redução de seu tamanho devido a aterramentos para construção de casas. -
Nos anos 1990, a comunidade enfrentou uma grande ameaça: projetos de expansão do Aeroporto Pinto Martins previam o soterramento da lagoa.
A mobilização comunitária, liderada por figuras como o Sr. Raimundo Nonato (Secretário da Associação dos Moradores), garantiu a preservação do espelho d'água -1.
Hoje, a lagoa integra projetos de requalificação urbana, com melhorias na iluminação, acessibilidade e paisagismo. -
A Lenda da Carimbamba
Uma lenda popular envolve a Lagoa do Opaia. Diz-se que todas as noites um canto triste ecoava na lagoa, como se estivesse falando "amanhã eu vou, amanhã eu vou".
Era a Carimbamba, uma ave semelhante a uma coruja. Uma garota chamada Rosabela, moradora da região, havia se encantado por esse canto. -2
Segundo a lenda, Rosabela saiu como sonâmbula numa noite de lua cheia, foi direto para a lagoa atrás da ave e ali morreu afogada.
Desde então, nas noites de lua cheia, pode-se ouvir da lagoa do Opaia, Rosabela cantando o canto da Carimbamba: "amanhã eu vou, amanhã eu vou". -2
Esta lenda inspirou a música "Amanhã eu vou", composta por Beduíno e Luiz Gonzaga, e gravada pelo próprio Rei do Baião em 1951.
A Vida de Bairro e Seus Personagens
Apesar do crescimento, o Vila União manteve por décadas o perfil de bairro tranquilo e comunitário.
O aposentado Francisco Jacinto de Sousa, o popular "Caboclo do Olho Cego" , um dos mais antigos moradores, recordava que a tranquilidade só era interrompida pelo fluxo de carros para o aeroporto.
Havia um cenário bucólico, com a Lagoa do Opaia, frondosas mangueiras e cajueiros -3.
O Vila União Atlético Clube tornou-se um dos principais centros sociais da região, especialmente nas décadas de 1970 e 1980, com tertúlias (rodas de violão e conversa), eventos culturais e bailes carnavalescos que reuniam moradores e visitantes. -3
O clube ainda sobrevive e é mantido com muitos esforços da coletividade e dos sócios.
José Maria da Silva, conhecido como "Zé do Buzo" , foi uma das figuras mais emblemáticas do bairro.
Chegou no Vila União aos dez anos de idade e viveu mais de sessenta anos no mesmo local, onde criou seis filhos.
Houve mudanças no nome das ruas, que antes eram nome de santos — com a pavimentação do bairro, muitas pessoas se perdiam, então Zé do Buzo decorou todas as ruas e tornou-se o "informador de ruas" oficial e voluntário do bairro, ajudando moradores e visitantes -1.
Seu Zé do Buzo faleceu em 2007, mas seu filho continuou o comércio que serve caldos famosos à comunidade e mantém na fachada o letreiro: "Zé do Buzo – Informador de ruas".
A Fé e os Marcos Históricos
A espiritualidade sempre ocupou papel central na vida do bairro.
A Paróquia Jesus Maria José, localizada na Praça Jorge Vieira, consolidou-se como importante referência religiosa da comunidade no final dos anos 1960.
A Praça Jorge Vieira, inaugurada em 8 de novembro de 1968 no local onde antes funcionava o campo do time ABC (o primeiro time de futebol do bairro), transformou-se em ponto tradicional de encontro das famílias.
A inauguração ocorreu em 8 de dezembro de 1968, dia da Consagração de Nossa Senhora da Conceição.
Em frente ao antigo aeroporto, foi criado em 1965 um largo que recebeu o monumento ao vaqueiro, obra do escultor pernambucano Corbiniano Lins (mesmo autor da Estátua de Iracema).
Posteriormente, o espaço passou a se chamar Praça Brigadeiro Eduardo Gomes.
A Feira dos Cacarecos: Tradição Centenária
A Feira do Troca-Troca, popularmente conhecida como "Feira dos Cacarecos" , acontece no bairro desde 1971 e se tornou referência no Vila União.
Realizada aos domingos, a feira atrai visitantes de toda Fortaleza em busca de:
- Antiguidades e objetos de colecionador
- Móveis e eletrodomésticos usados
- Animais, bicicletas, sapatos e roupas
- Discos de vinil, livros e revistas antigas
Como dizia Zé do Buzo: "Só tem coisa velha".
A feira é um verdadeiro museu a céu aberto, onde cada objeto tem uma história para contar.
O Polo de Confecções: Transformação Econômica
A partir dos anos 2000, o Vila União passou por uma significativa transformação econômica.
O bairro fortaleceu-se como polo de confecções e comércio atacadista de moda, com a migração de mais de 40 fábricas de pronta-entrega para a região.
Segundo o presidente do Sindicato dos Corretores de Moda de Fortaleza (Sincom), José Afonso Bezerra Júnior, "para nós, o Vila União é o principal centro de venda de confecções.
Hoje, encontra-se à frente do Montese e da Maraponga". -3
O movimento de caminhões e compradores pela manhã mudou a cara das ruas.
Quem passa pelo bairro nas primeiras horas do dia encontra dezenas de carros em frente às lojas, sinal de que o setor está em plena atividade, gerando emprego e renda para a região. -
O Restaurante Caravelle: Testemunha da História
O Restaurante Caravelle é um símbolo da história do bairro.
Com mais de 50 anos de funcionamento, era parada obrigatória para quem deixava familiares no antigo Aeroporto Pinto Martins.
Seu proprietário, Oscar Victor de Holanda, 77 anos, conta: "Nunca houve época ruim para o Caravelle.
No passado, o aeroporto movimentava a casa. Hoje, é o comércio de confecções" -3.
O restaurante se adaptou aos novos tempos, introduzindo refeições self-service, mas mantém a personalidade carismática que o tornou referência no bairro -3.
Equipamentos Públicos e Infraestrutura
O bairro conta com importantes equipamentos públicos:
- Hospital Infantil Albert Sabin: Referência estadual em atendimento pediátrico.
- Sede administrativa da Prefeitura de Fortaleza: Instalada na Avenida Luciano Carneiro desde os anos 1990.
- Escola General Cordeiro Neto: Primeira escola pública do bairro, inaugurada em 1964.
- CAGECE: A sede da Companhia de Água e Esgoto do Ceará está localizada no bairro.
Em 2004, foi construído o conjunto habitacional Planalto Universo, onde moram 648 famílias provenientes tanto do Vila União quanto de bairros vizinhos, com trabalho de Ação Social e melhorias na convivência comunitária.
Talentos Artísticos e Cultura
O Vila União é celeiro de talentos artísticos reconhecidos fora do bairro -1:
- Zé do Buzo – "Informador de Ruas"
- João Birro – "Contador de Mentiras"
- Jair Moraes – jeito "Folclórico Cantador"
- Beto Gaudêncio – artista plástico
- Grupo de Quadrilha Zé Testinha – referência no Nordeste Brasileiro
A Quadrilha Zé Testinha mantém viva a tradição junina, coleciona prêmios e envolve crianças, jovens e adultos da comunidade em seus preparativos durante todo o ano.
Desafios e Mobilização Comunitária
A comunidade do Vila União sempre se mobilizou em defesa de seus direitos.
Nos anos 1990, o conflito com a Infraero pela Lagoa do Opaia uniu moradores e associações.
Mais recentemente, durante a implantação do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), a comunidade Lauro Vieira Chaves travou uma batalha contra a remoção de famílias, conseguindo mudar o traçado do VLT e preservar suas residências.
A Associação dos Moradores do Vila União segue atuante.
Sr. Raimundo Nonato, principal articulador comunitário nos conflitos com a Infraero, continua sendo referência, e Irismar é a atual presidente da Associação Comunitária.
O Vila União Hoje: Tradição que se Renova
O Vila União é, hoje, um bairro que equilibra sua herança histórica com as demandas da vida moderna:
Perfil: Residencial e comercial- População: cerca de 17.000 habitantes (Censo 2000: 14.744 hab.)-1
- Patrimônio: Lagoa do Opaia, Praça do Vaqueiro, Vila União Atlético Clube
- Tradições vivas: Feira dos Cacarecos, Quadrilha Zé Testinha
- Comércio forte: Polo atacadista de confecções com mais de 40 fábricas
Segundo o IBGE, o bairro tem cerca de 17 mil moradores, com três favelas importantes: Favela do Carvão, Jagatá e Complexo Lagoão.
Quadro Informativo — Vila União
| Aspecto | Informação |
|---|---|
| Fundação Oficial | 23 de agosto de 1940 |
| Origem do Nome | Homenagem à localidade de União (atualmente distrito de Jaguaruana), ligada à origem do proprietário das terras. |
| Principal Via | Avenida Luciano Carneiro |
| População Estimada | cerca de 17.000 habitantes |
| Destaques | Lagoa do Opaia, polo de confecções, Hospital Infantil Albert Sabin |
| Tradições | Feira do Troca-Troca (1971), Vila União Atlético Clube, Quadrilha Zé Testinha |
| Personagens Históricos | Zé do Buzo, Caboclo do Olho Cego, Sr. Raimundo Nonato |
Curiosidades e Fatos Marcantes
| Fato | Detalhe |
|---|---|
| Origem do nome | Homenagem à cidade de União (Jaguaruana), terra natal da antiga proprietária das terras. |
| Primeiro nome da área | Barro Preto (referência ao solo rico em argila) |
| Primeiro time de futebol | ABC do Vila União, que deu lugar à Praça Jorge Vieira em 1968. |
| Energia elétrica | Chegou apenas em 1957 |
| Estrada de ferro | Construída em 1942, liga Parangaba ao Mucuripe |
| Escultura da Praça do Vaqueiro | De autoria de Corbiniano Lins, mesmo autor da Estátua de Iracema. |
| Zé do Buzo | Decorou todas as ruas do bairro após mudança de nomes — virou "informador voluntário" |
| Lagoa do Opaia | Foi alargada por um morador que retirava barro para fazer tijolos. |
| Feira dos Cacarecos | Começou em 1971 e vende de tudo: "Só tem coisa velha", dizia Zé do Buzo. |
| Lenda da Carimbamba | Inspirou música de Luiz Gonzaga ("Amanhã eu vou") |
| Prefeitura no bairro | Sede administrativa está no Vila União desde os anos 1990. |
Linha do Tempo: Vila União
| Ano | Acontecimento |
|---|---|
| 1938 | Venda das terras de Maria da Conceição Jacinto para Dr. Manoel Sátiro |
| 1940 | Fundação oficial do bairro (23 de agosto) |
| 1942 | Construção da estrada de ferro Parangaba-Mucuripe |
| 1957 | Chegada da energia elétrica |
| 1964 | Inauguração da Escola General Cordeiro Neto |
| 1965 | Construção da Praça do Vaqueiro (atual Praça Brigadeiro Eduardo Gomes) |
| 1968 | Inauguração da Praça Jorge Vieira (8 de dezembro) |
| 1971 | Início da Feira do Troca-Troca ("Feira dos Cacarecos") |
| 1970-80 | Apogeu do Vila União Atlético Clube (tertúlias e bailes) |
| 1990 | Conflito com Infraero pela Lagoa do Opaia; mobilização vitoriosa |
| 1990 | Transferência da sede da Prefeitura para o bairro |
| 2000 | Consolidação do polo de confecções (+40 fábricas) |
| 2004 | Construção do Conjunto Planalto Universo |
| 2007 | Falecimento de Zé do Buzo |
| 2020 | Projetos de requalificação da Lagoa do Opaia |
Conclusão
O Vila União permanece como um retrato marcante de Fortaleza: um bairro que cresceu, modernizou-se e fortaleceu seu comércio, mas preservou a memória coletiva, o espírito comunitário e suas tradições históricas.
Das terras de "Barro Preto" ao movimentado polo de confecções, da Lagoa do Opaia que resistiu às ameaças de aterro à Feira dos Cacarecos que há mais de 50 anos reúne visitantes, da memória do Zé do Buzo à tradição da Quadrilha Zé Testinha, o Vila União prova que é possível crescer sem perder as raízes.
Em 2026, quando Fortaleza completar 300 anos, o Vila União celebrará 86 anos de história — uma história escrita por mãos anônimas, lideranças comunitárias, comerciantes batalhadores e famílias que escolheram este pedaço de chão para construir seus sonhos.
Por : José Santos (Maestro Cidão) - Publicitário/Jornalista - Mtb: 007.4524/SP
