População da Regional X: Aproximadamente 140.000 habitantes
Bairro Mais Popular: Montese — pelo maior polo comercial popular da Zona Oeste
A Origem do Nome:
Uma Homenagem aos Heróis da Segunda Guerra
Contrariando a crença popular, o nome "Montese" não deriva de "monte" ou de uma referência geográfica, mas sim de uma homenagem histórica de profundo significado nacional.
Em 14 de abril de 1945, durante os combates finais da Segunda Guerra Mundial no teatro italiano, a Força Expedicionária Brasileira (FEB) travou uma das suas batalhas mais duras e simbólicas: a Tomada de Montese, uma cidade fortificada na região da Emília-Romanha.
Após dias de intensos combates casa a casa, os soldados brasileiros conquistaram a posição, mas a um custo altíssimo: 434 mortos, feridos e desaparecidos em apenas uma semana.
A vitória consolidou a reputação da FEB e entrou para a história militar do Brasil.
Quando o bairro começou a ser loteado no final da década de 1940, seus fundadores, muitos deles ex-combatentes ou simpatizantes da causa, escolheram o nome "Montese" como um tributo permanente à coragem e ao sacrifício dos pracinhas.
Curiosidade Histórica:
O loteamento pioneiro foi capitaneado pelo Capitão Raimundo Porfírio de Sousa, ele próprio um veterano da FEB.
Movido pelo sentimento de fraternidade com seus companheiros de armas, ele não apenas batizou o bairro, mas também desenhou as primeiras ruas e as nomeou em homenagem a outros palcos de glória brasileira na Itália: Rua Monte Castelo, Rua Castelnuovo e Rua Pistóia.
As plantas originais, com suas anotações à mão e traços precisos, são relíquias guardadas com cuidado no Museu do Expedicionário de Fortaleza, localizado no Centro, servindo como um elo tangível entre a memória da guerra e a formação do bairro.
A Feira do São Gerardo:
O Maior Mercado ao Ar Livre do Ceará
A alma comercial do Montese pulsa forte na Feira do Bairro São Gerardo, um fenômeno urbano que nasceu da necessidade pura e simples.
Por volta de 1972, agricultores das regiões de Caucaia, Maracanaú e de áreas rurais próximas, que traziam seus produtos para vender no Mercado Central de Fortaleza, começaram a parar em terrenos baldios do então distante bairro do Montese para descansar e vender os excedentes da carga.
A localização era estratégica, no caminho para a capital. Aos poucos, essas paradas improvisadas atraíram fregueses locais e outros pequenos vendedores.
O que começou como um aglomerado de 20 barracas precárias transformou-se, em poucos anos, em um dos mais dinâmicos e extensos complexos de comércio popular de todo o Nordeste.
A feira cresceu organicamente, seguindo a demanda, e se tornou o coração econômico não apenas do bairro, mas de toda a Zona Oeste.
Curiosidade Comercial Impressionante:
A feira ocupa hoje uma área equivalente a cerca de 16 quarteirões urbanos, um labirinto vibrante de comércio onde convivem aproximadamente 3.500 barracas fixas e centenas de ambulantes.
A cada semana, ela atrai um fluxo estimado de 80.000 a 100.000 pessoas em busca de preços baixos e variedade.
Um estudo conduzido pela Universidade Federal do Ceará (UFC) estimou que o movimento financeiro mensal gira em torno de R$ 15 a R$ 20 milhões, um verdadeiro PIB paralelo. A estrutura da feira é dominada por setores específicos:
Confecções (40% das barracas): Roupas, calçados e acessórios para toda a família.
Alimentos (30%): Hortifrúti fresco, cereais, queijos, carnes e uma infinidade de comidas típicas.
Eletroeletrônicos (15%): De cabos e pilhas a celulares e eletrodomésticos.
Outros (15%): Utensílios domésticos, ferramentas, artigos religiosos e muito mais.
A Revolução da Avenida Monsenhor Hélio Campos
Se a Feira do São Gerardo é o coração pulsante e popular do comércio, a Avenida Monsenhor Hélio Campos representa sua espinha dorsal formal e consolidada.
Batizada em homenagem ao dedicado sacerdote que fundou a Paróquia de São Gerardo Mártir em 1975, esta avenida foi, a partir da década de 1990, o palco de uma verdadeira revolução comercial.
Conforme o bairro se densificava e o poder aquisitivo local aumentava, lojas de médio e grande porte vislumbraram a oportunidade.
A avenida transformou-se rapidamente no principal corredor comercial da Zona Oeste, concentrando redes de varejo, concessionárias, farmácias, lojas de materiais de construção e serviços especializados, atendendo não só o Montese, mas bairros vizinhos e até municípios da região metropolitana.
Curiosidade Urbana:
O trecho mais movimentado, entre as ruas Carlos Vasconcelos e 24 de Maio, ostenta um recorde: a maior densidade de lojas por metro linear de Fortaleza, com uma média impressionante de uma loja a cada 8 metros.
Esse crescimento explosivo e desordenado exigiu intervenção.
Em 1998, a Prefeitura de Fortaleza implementou o primeiro Plano Diretor Comercial específico para uma via da cidade, regulando horários de funcionamento, criando zonas de carga e descarga, organizando o estacionamento e estabelecendo normas para fachadas e placas, em um esforço pioneiro de trazer ordem ao caótico e bem-sucedido desenvolvimento.
O Shopping Montese:
O Primeiro Shopping de Bairro do Nordeste
A consolidação do Montese como potência comercial deu um salto qualitativo com a inauguração do Shopping Montese em 1995.
Idealizado pelo visionário empresário José Maria de Andrade, o empreendimento foi um projeto audacioso e considerado arriscadíssimo à época.
Enquanto o Brasil assistia à proliferação de shoppings centers em áreas nobres e de alto luxo, a proposta do Shopping Montese era inédita: criar um "shopping de bairro" — acessível, com mix de lojas voltado para a classe média emergente e localizado no coração de uma região periférica em franco crescimento.
A aposta, desacreditada por muitos, mostrou-se um golpe de gênio.
No primeiro ano de operação, o shopping superou em 40% as projeções mais otimistas de faturamento.
Sua âncora principal na inauguração, o Supermercado Extra (posteriormente substituído pelo Atacadão), registrou números de vendas que bateram recordes nacionais para a rede, comprovando o poder de consumo da região.
O Shopping Montese não só deu certo como criou um novo conceito de varejo que seria replicado em outras periferias de Fortaleza e do Nordeste.
A Paróquia de São Gerardo:
Mais que uma Igreja, uma Instituição Social
A fundação da Paróquia de São Gerardo Mártir em 1975, sob a liderança do Monsenhor Hélio Campos, foi um evento fundacional que transcendia o aspecto religioso.
A igreja rapidamente se tornou o verdadeiro centro social, comunitário e de mobilização do bairro.
Monsenhor Hélio entendia que sua missão pastoral estava intrinsecamente ligada ao desenvolvimento social e à dignidade humana dos moradores, muitos deles migrantes em situação vulnerável.
Curiosidade Social Pioneira:
Em 1978, a paróquia deu um passo revolucionário para a época: criou a primeira cooperativa de catadores de material reciclável de Fortaleza, batizada de "Reciclar para Educar".
A iniciativa não apenas gerou renda para cerca de 50 famílias em situação de extrema pobreza, mas também financiou, com os recursos obtidos da venda do material, a construção da primeira creche comunitária do bairro.
Este modelo inovador de economia solidária urbana, que unia sustentabilidade ambiental, geração de renda e investimento social, ganhou projeção internacional e foi estudado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1985 como um caso exemplar a ser replicado.
O Fenômeno da Moda Popular:
A “25 de Março Cearense”
Paralelamente ao crescimento da feira e do comércio formal, um nicho específico floresceu de forma extraordinária: a Rua 24 de Maio (cuidado para não confundi-la com a famosa via do Centro) metamorfoseou-se no maior polo atacadista e varejista de confecções populares de Fortaleza.
O volume e a variedade de roupas, tecidos e aviamentos a preços competitivos renderam-lhe o apelido de "25 de Março Cearense", em alusão à famosa rua comercial paulistana.
Curiosidade da Moda:
A especialização da rua tem uma origem quase acidental. Em 1985, uma loja chamada "Tricot" começou a vender, a preços irrisórios, retalhos e sobras de tecido provenientes de confecções locais.
O sucesso foi imediato entre costureiras, artesãs e o público em geral.
Observando o fenômeno, outros comerciantes do quarteirão migraram rapidamente para o ramo têxtil.
Em apenas dois anos, a Rua 24 de Maio já era um endereço consolidado para compras de moda popular.
Hoje, estima-se que cerca de 70% do vestuário de baixo custo vendido nas feiras livres de todo o Ceará passe, em algum momento da cadeia, pelos atacadistas e distribuidores dessa rua.
Os Armazéns Atacadistas:
O “CEASA do Varejista”
Complementando o ecossistema comercial, surgiu nos anos 2000, principalmente ao longo da Avenida John Sanford, um cluster impressionante de armazéns e distribuidoras atacadistas.
Esses galpões, mais de 50 em operação, funcionam como uma espécie de "CEASA do pequeno varejista", abastecendo não apenas as barracas da Feira do São Gerardo e as lojas do Montese, mas também comerciantes de toda a Zona Oeste e de municípios vizinhos como Caucaia e Maracanaú.
Curiosidade Logística:
A dinâmica desse segmento cria um cenário urbano singular.
O horário de pico absoluto ocorre entre 3h e 7h da manhã, quando centenas de caminhonetes, furgões e carros de passeio lotam as ruas enquanto donos de pequenos negócios fazem suas compras para o dia.
Dessa necessidade nasceu uma economia informal paralela: os "carregadores" ou "peões".
Por cerca de R$ 5 por fardo, esses trabalhadores, estimados em 200 pessoas, carregam as mercadorias dos armazéns até os veículos dos compradores, formando uma cadeia de trabalho essencial que movimenta-se nas madrugadas do bairro.
O Teatro do Montese:
Cultura no Coração do Comércio
Em meio a tanta atividade econômica, a semente cultural também encontrou terreno fértil.
Inaugurado em 2002, o Teatro do Montese (oficialmente chamado Centro Cultural Ação e Cidadania) tem uma origem peculiar: foi construído com recursos de compensação ambiental provenientes da instalação de uma grande rede de supermercados na região.
Com capacidade para 350 lugares, o equipamento rapidamente se estabeleceu como o principal palco e ponto de difusão cultural da Zona Oeste, preenchendo uma lacuna histórica.
Curiosidade Cultural:
Desde 2005, o teatro sedia o consagrado "Projeto Sexta no Teatro", que oferece apresentações artísticas gratuitas todas as sextas-feiras à noite.
O projeto, que já recebeu mais de 150.000 espectadores ao longo dos anos, tornou-se uma tradição local e uma vitrine crucial para artistas da região.
Foi nesse palco que grupos como a companhia de teatro "Os Monteses" ganharam notoriedade, chegando a conquistar prêmios em festivais nacionais.
Os Desafios do Sucesso:
Trânsito e Especulação
O extraordinário crescimento comercial trouxe consigo desafios urbanos de grande magnitude. O trânsi
to nas vias centrais do Montese, especialmente às quintas-feiras (dia de feira de frutas e verduras) e sábados (dia da feira geral), é constantemente classificado como um dos mais caóticos e congestionados de toda Fortaleza.
Em 2015, um levantamento da Prefeitura registrou, em horário de pico, impressionantes 14 km de congestionamento simultâneo nas ruas do entorno do núcleo comercial.
Curiosidade do Trânsito Criativo:
Da dificuldade, os moradores criaram soluções informais e engenhosas. Surgiu uma categoria peculiar de trabalhadores autônomos: os "aviões".
Por uma taxa média de R$ 10, esses guias de trânsito improvisados ajudam motoristas desesperados a encontrar vagas de estacionamento, muitas vezes em pátios de residências particulares que foram adaptados para esse fim.
Estima-se que cerca de 200 casas no coração comercial ofereçam esse serviço, gerando uma fonte de renda complementar significativa para as famílias e amenizando, de forma criativa, um problema crônico de infraestrutura.
O Montese Gastronômico:
Das Barracas aos Restaurantes
A vitalidade comercial se reflete também na cena gastronômica, que é diversa e movimentada.
A oferta vai das barracas de rua e lanches tradicionais aos restaurantes por quilo que são verdadeiras instituições, servindo até 2.000 refeições por dia para trabalhadores e moradores.
É um território de sabores autênticos e preços acessíveis.
Curiosidade Gastronômica:
Entre os pontos mais tradicionais está o "Caldo de Cana do Seu Zé", em operação desde 1990.
O local processa uma média impressionante de 3 toneladas de cana-de-açúcar por semana.
O proprietário atribui a qualidade e o sabor do caldo a um segredo: a mistura cuidadosa de três variedades diferentes de cana, colhidas em estágios de maturação distintos.
A fama do lugar transcendeu as fronteiras do bairro e do estado, atraindo a atenção e reportagens de canais de televisão do eixo Rio-São Paulo.
As Escolas que Formam Comerciantes
O DNA comercial do Montese influenciou até seu sistema educacional.
A região desenvolveu um ecossistema de formação profissional singular, focado nas necessidades do mercado local.
A Escola Estadual de Educação Profissional (EEEP) Montese, a partir de 2005, passou a oferecer cursos técnicos em áreas como Transações Imobiliárias, Varejo e Logística — formações únicas no estado, desenhadas para atender às demandas do vibrante polo comercial.
Curiosidade Educacional-Comercial:
A escola vai além da teoria. Ela mantém em funcionamento uma Empresa Júnior real, onde os alunos administram um minimercado pedagógico.
O empreendimento, que chega a faturar R$ 180.000 por ano, oferece experiência prática em gestão, atendimento, compras e finanças.
Os lucros são reinvestidos em bolsas de estudo e melhorias para a escola.
O projeto já formou mais de 500 jovens, e um número significativo deles acabou abrindo seu próprio negócio no bairro ou na região, fechando um virtuoso ciclo de capacitação e desenvolvimento local.
O Parque Rio Branco:
O Pulmão que Resistiu
Em contraste com a densa massa construída e o asfalto, o Parque Rio Branco (inaugurado em 1992) sobrevive como um precioso e vital espaço verde de lazer e convivência.
Seus 4,5 hectares são um refúgio para famílias, praticantes de esportes e moradores que buscam um momento de tranquilidade. A existência do parque, porém, não foi sempre certa. No início dos anos 1990, a área foi cobiçada para a construção de um grande centro comercial.
Curiosidade Ambiental e de Mobilização:
A salvação do parque veio de um abaixo-assinado organizado por estudantes da rede municipal, que coletou a impressionante marca de 8.000 assinaturas em defesa da área verde.
A pressão popular foi vitoriosa. Hoje, o parque abriga uma curiosidade viva: um jacaré-de-papo-amarelo que apareceu em seu lago em 2005 e, misteriosamente, decidiu permanecer.
Batizado carinhosamente de "Gerardo" pelos frequentadores, o réptil é monitorado pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SEMAM) e tornou-se uma atração informal e o mascote não oficial do local.
A Comunidade Chinesa do Montese
Uma faceta menos conhecida, mas economicamente significativa, da diversidade do Montese é a presença de uma comunidade de imigrantes chineses que começou a se estabelecer no bairro a partir dos anos 2000.
Atraídos inicialmente pelas oportunidades no comércio de eletrônicos e acessórios tecnológicos, esses empreendedores encontraram no bairro um ambiente propício.
Atualmente, estima-se que cerca de 300 famílias chinesas vivam e trabalhem no Montese, controlando aproximadamente 40% do comércio especializado em celulares, eletrônicos e seus acessórios na região.
Eles trouxeram novas dinâmicas de importação, gestão e relacionamento com fornecedores globais.
Curiosidade Cultural-Comercial:
A comunidade chinesa também introduziu e mantém vivas tradições culturais.
Todo Ano Novo Chinês (ou Festival da Primavera), as principais ruas comerciais do Montese são palco da vibrante e colorida Dança do Leão, uma performance que atrai milhares de curiosos e moradores, criando um espetáculo único.
A celebração tornou-se tão integrada ao calendário local que, a partir de 2019, foi oficialmente incorporada ao calendário de eventos da Prefeitura de Fortaleza.
O Futuro:
Entre a Tradição e a Modernidade
O Montese agora encara o desafio de equilibrar sua bem-sucedida tradição comercial com as demandas de uma modernidade urbana sustentável.
Como evoluir sem perder a essência que o tornou grande? Um esforço nessa direção é o plano "Montese 2030", uma proposta elaborada em parceria entre urbanistas da UFC e associações comerciais locais.
O plano prevê, entre outras coisas, a transformação da Avenida Monsenhor Hélio Campos em um "Boulevard Comercial", com calçadas ampliadas e acessíveis, arborização intensiva, mobiliário urbano adequado e infraestrutura tecnológica (como wi-fi público e pontos de recarga) para apoiar a transição para um comércio 4.0 mais digital e conectado.
Curiosidade do Futuro:
Um passo concreto nessa modernização foi dado em 2022, com a instalação do primeiro Posto Comercial Digital do Nordeste.
Trata-se de um quiosque onde microempreendedores e pequenos comerciantes podem, de forma gratuita ou subsidiada, emitir notas fiscais eletrônicas, acessar informações sobre linhas de crédito, participar de cursos de capacitação online e receber consultoria empresarial básica.
O projeto-piloto, um sucesso, atendeu 1.200 comerciantes em seu primeiro ano e serve como modelo para políticas públicas em outras regiões da cidade.
Quadro de Datas Comemorativas — Regional X
| Bairro | Data Significativa | Evento Principal | Curiosidade Adicional |
|---|---|---|---|
| Montese | 1948 | Loteamento Inicial | Nome é homenagem à Batalha de Montese (1945) na Segunda Guerra. |
| São Gerardo | 1972 | 1ª Feira Livre | Começou espontaneamente com cerca de 20 barracas de agricultores. |
| Montese | 1995 | Inauguração do Shopping Montese | Foi o primeiro shopping de bairro do Nordeste. |
| Paróquia S. Gerardo | 1975 | Fundação | Criou a 1ª cooperativa de catadores de Fortaleza em 1978. |
| Parque Rio Branco | 1992 | Inauguração | Área foi salva por abaixo-assinado com 8.000 assinaturas. |
| Rua 24 de Maio | 1985 | Especialização em Moda | Processo iniciado pela loja pioneira "Tricot" |

